A cesta de Natal

O dia ainda estava escuro enquanto Dorcas despertada pela obrigação, mas embriagada de sono e cansaço, resfolegava o ar da manhã em rápidas passadas rumo à estação de trem. No caminho, algumas pessoas já transitavam sobre as estreitas calçadas provocando um sonoro lembrar de uma marcha descompassada. A tiracolo, uma velha bolsa ficava envolvida em seus braços para manter firmeza sem atrapalhar a objetiva caminhada. A chegada à estação se tornava sempre uma agonia; o medo do atraso do trem, os gatunos de plantão ou um homem atrevido qualquer que se aconchegasse de modo mais abusado, quando ela já estivesse dentro do vagão. A ansiedade tomava conta de todos quando o trem encostava-se à plataforma; os olhares procuravam lugares enquanto as portas e as janelas iam passando como um carrossel fazendo uma parada. No meio da aglomeração, entre pernas, bolsas e cotoveladas, suas mãos alcançaram o ferro de apoio completamente gelado. Outras mãos se chegaram provocando um emaranhado de braços, cheiros e texturas. Próxima estação. A estranheza do olhar de um na cara do outro já não incomodava tanto. O trem seguiu o seu trajeto como algo sólido e lógico. Cabeças paradas, gente dando risadas, outros fumando. Aos poucos o aperto se misturava com acomodação. Entre um braço e outro, o alcance de sua visão conseguia distinguir um pouco as palavras em destaque na primeira página de um jornal que um homem de chapéu lia com atenção. Ao seu lado uma mulher de olhos fundos tentava cochilar. Em suas costas, um frio gelado insistia em penetrar pela fresta da porta. Entre rostos e paisagens Dorcas encontrou algumas lembranças que começaram tentar se encaixar. A noite passada, a discussão com o marido que gostava de beber, o filho que não comia direito e estava muito magrinho. Era ora desse menino corar, pensava. Será que tava com bicha? Licor de cacau daria um jeito. Os outros dois filhos estavam bem; a mais velha tirando boas notas na escola, o do meio como sempre aprontando, mas passando de ano e o frio que num acalmava; precisança de compra blusa pros dois; mas como? O resto tava bom; com saúde tudo se arranjava. Entre o chacoalhar do trem e o barulho do assobiar do atrito das rodas com os trilhos, seus pensamentos dispersos só foram resgatados por uma importante e única lembrança: aquele era o dia da véspera de natal. O ano tinha atropelado a vida e gastura dos dias era trabalho fora e em casa.

Após uma jornada de duas horas de viagem e três conduções, a subida na rua de paralelepípedos para chegar até o trabalho se tornava ainda mais difícil. Parecia que a pequena rua se transformava em uma enorme montanha, onde Dorcas caçaria um leão e o mataria até às sete horas da noite. Na sua labuta, limpava, lavava e passava. A Casa dava trabalho: quartos grandes, sala imensa, uma grande escada com o corrimão de latão. A patroa sempre exigia o brilho, tinha muito orgulho daquela escada. Do lado de fora, um quintal pra mais de vinte metros. O varal também não era nada pequeno. Ali ela estendia toda a roupa lavada que ficou esperando desde a semana anterior. Uma pilha de roupas sujas; sete pessoas vivendo e sujando. Ela não se importava, a partir do momento que adentrava pela casa praticamente virava outra pessoa; era um trem por dentro do outro, como ela dizia, de tão ágil e forte. Suas pequenas mãos viravam grandes máquinas e o minúsculo corpo se movia para lá e para cá o dia inteiro. O vestido puído era o quadro vivo que misturava manchas de suor e água de sabão. Hora do almoço. Senta aqui com a gente Dorcas! A patroa falava. Meio sem jeito, ela respondia que não, e com um sotaque todo seu emendava: eu gosto de cumê na suleira. Quanto mais cedo terminá o selviço, mais cedo vô imbora!

E seguiu o dia, chegou a tarde e passou o tempo. Após a última peça de roupa passada, ela guardou o ferro e foi se arrumar. Já de volta, deu alguns passos e se diante da grande porta de peroba de entrada do casarão. Ao lado, um vaso com uma palmeira. “Deixa que eu bote água dona Nenê.” Disse Dorcas com delicadeza, largando a bolsa no chão. Quando voltou com um caneco na mão teve um espanto. Antes do primeiro degrau, sua patroa havia colocado uma grande caixa de papelão. “Sua cesta de natal!” Disse dona Nenê. A caixa era uma embalagem simples, porém, estava bem amarrada. A patroa agradeceu a Dorcas pelo bom trabalho que ela desempenhava na casa e desejou-lhe um feliz natal, sem se esquecer de dar recomendações à toda sua família. Abraçaram-se e se despediram. Os pequenos braços de Dorcas envolveram a grande caixa de papelão, deixando apenas a visível um pedaço de seu rosto, onde os olhos agradecidos e marejados já vislumbravam uma pequena luz no final da rua que aparecia no meio da escuridão que espreitava. Ao chegar ao ponto de ônibus, o peso da caixa já falava por si só. Cansada, colocou a caixa no chão. Ao seu lado algumas pessoas também esperavam. Próximo ao ponto, um comerciante lavava a frente do bar. A água escorria rua abaixo, formando curvas pela calçada. Dorcas estava atenta para não perder o ônibus. Encostado a parede, um mendigo gemia lamúrias, apesar de aparentemente estar embriagado. Quando o ônibus chegou, ela mal teve tempo para apanhar a caixa; as pessoas correram se atropelando, provocando um tumulto nos degraus. Quando finalmente conseguiu entrar e colocar a caixa no chão, percebeu que o fundo e as dobras estavam molhados. Tocou a mão e sentiu um pequeno espaço; alguma coisa tinha ficado para trás. Ao erguer a cabeça, notou do lado de fora o mendigo se abaixando e abraçando feliz um pote de vidro. Ao arranque do ônibus, sua única reação foi olhar para a caixa e lamentar em silêncio. Na Segunda condução de volta para casa, sua caixa estava de ponta cabeça, já que o papelão do fundo não oferecia resistência. Mesmo assim, o peso ainda era grande, seus braços doíam. Dorcas tentou resistir o máximo que pode.

Dentro do trem não havia lugar para sentar, suas mãos formigavam; seu cansaço era maior que tudo. Sentindo não poder levar a caixa tão cheia e pesada até em casa, sua solução foi aliviar o peso e o sofrimento com a doação. Um pacote de macarrão para uma senhora mal vestida. Uma lata de ervilhas para a menininha que vendia doces. Uma caixa de bombons foi aberta e dividida para dezoito pessoas. A notícia se espalhou no vagão, olhos pedintes apareceram de toda parte. Um isso para aquele, um aquilo para o outro. Restaram apenas dentro da caixa quase esfarrapada uma garrafa de vinho e um saco de balas de festa. Quando ela chegou a casa, passava das dez da noite e todos já estavam dormindo. Seu marido roncava na cama de casal e suas três crianças estavam esparramadas num velho colchão no chão. Dorcas tomou banho, se ajoelhou aos pés da cama, pediu para Deus proteger a todos, e cansada, deitou e dormiu. A luz da lua atravessava a janela da cozinha e fazia a garrafa de vinho em cima da mesa refletir sobre o saco de balas brancas que certamente fariam a felicidade das crianças no natal. Em algum canto da cidade, um mendigo comeu azeitonas, uma velha cozinhou macarrão e uma menininha, enjoada de comer resto de doces, comeu pela primeira em sua vida ervilhas em conserva. 

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PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO

Um sábado, duas da tarde. A fome já não te faz raciocinar, ela te conduz a um único pensamento comida, comida e comida. Isso não é raciocínio! É auto latrocínio fisiológico; pois do contrário jamais te levaria sem pensar até um shopping em pleno final de novembro, quase dezembro – quando a centrífuga do capitalismo natalino já está te empurrando no meio da coisa ao centro do funil da gastança desenfreada- para almoçar e, logicamente, olhar vitrines; porque ninguém é tão cego assim quando seu desejo não desejável verdadeiro é empurrado goela abaixo pela mídia: ver nem sempre é preciso, comprar é preciso, eu preciso e todos nós precisamos! Mas o objetivo deste não é a crítica apenas é o outro lado da coisa: a praça de alimentação. Acho que o cara que inventou a praça de alimentação nunca teve mãe, família, uma casa ou se teve tudo acontecia de um modo tão ridículo e sem fraternidade que ele carregou da infância pra adolescência essa ideia macabra de criar esse maravilhoso espaço compartilhado e cercado de lanchonetes e restaurantes. São dezenas de mesas quadradas, as vezes redondas e muitas vezes com cadeiras fixas ou até mais chiques com cadeirinhas de alumínio soltinhas pra alguém “roubar” e levar pra outra mesa onde tem quatro lugares, mas alguém precisa comer juntinho – pra manter aquele velho espírito familiar, lembra?- então pega uma cadeira e defasa a outra mesa e porque, como sempre sem se tratando de comida, que se danem os outros. A comida é maravilhosa: no papel. E haja papel e propaganda. Você chega e vai caminhado; ou melhor, movido pelo estômago e a fome maligna. Você começa a ouvir e perceber o assédio ou mais específico o atentado alimentar pelos funcionários das fornecedoras de alimento. Dá uma impressão estranha: assédio alimentar! Acho que, se as pessoas que ficam na porta das lanchonetes e restaurantes tivessem uma corda com um laço poucos escapariam. Yup! Peguei mais um! Quem laçasse primeiro colocaria o coitado na fila pra esperar e escolher o prato que vai pedir. E tudo tem fila. Fila do cardápio, fila da senha, fila do pedido, fila pra retirar, fila pra mesa…Antes de retirar começa a odisseia pra encontrar uma mesa vazia. Logicamente você vê uma porção de mesas com quatro cadeiras e uma ou duas ocupadas. Porque as pessoas nunca querem sentar perto das outras?– a menos que a pressa fale primeiro – Ou quando sentam, quem está comendo olha estranho para aquele que sentou. Tipo: ei essa mesa é minha, caia fora. Ou coma logo porque eu quero comer em paz! Dou até razão às vezes. Já imaginou um casal de namorados brigando e um senhor ou uma senhora senta-se ao lado deles com aqueles pratos do por kilo – onde tem um pouco de tudo e o saudável de nada. Linguiça, bobó de camarão, acarajé, pedaço de picanha, macarrão, batata, carne assada e por vai; esqueci: grão de bico pra dar um tchã! – e começa a se meter na briga dos dois? Ou o contrário, como presencie e me inspirei a fazer esta. O casal em beijinho e amores – no começo é tudo assim, beijinho por causa do beijinho, beijinho porque vai ao banheiro, porque voltou, porque deu saudade, porque foi pouco beijinho e por vai – e chega o velhinho. Com toda educação pede pra sentar, senta-se e começa a comer. Detalhe: a moça ficou e o namorado saiu e deu muitos beijinhos nela; – tantos que irritam – e já está voltando com a bandeja dela. Depois sai e volta com a dele. Ficam de frente e o senhorzinho ao lado. Velho de luz de vela na praça de alimentação. Detalhe: a música de fundo é o palhaço Ronald Mcdonalds cantando em playback aquelas lindas canções que prefiro não comentar. Mas ai o velhinho morde a batata e do lado dele rola um beijinho. Vai na calabresa e dá-lhe beijinho. Se lambuza no camarão e vem beijinho. E o Ronald se empolga e parece que som ou o próprio satanás do Ronald já está cantando dentro de seu cérebro. Na mesa ao lado uma criança começa a fazer birra, – acho que por causa do palhaço – o pai e a mãe não sabem o que fazer. Então, chega o grande momento da vingança. Você! É você mesmo! O coitado que se uniu a fome gigante do exército de Xerxes contra os 300 espartanos das mesas pra conseguir um lugar, finalmente se vê cercado por pessoas loucas pra sentar no seu lugar – parece filme de tubarão sabe? Mas, aqueles bem trash; tipo um que eu vi onde o tubarão mutante tinha duas cabeças. – Ai, as pessoas te olham com aquela cara tipo: sai dai cara! Tô com fome. E tem aquelas mal educadas que já vão fazendo igual cachorro pra arrumar briga; – cheira o rabo outro- ficam tão perto que sentem o cheiro a comida; só pra marcar território. Então; você ali comendo a comida que você sonhava – pelo menos é o que dizia na foto o cardápio; aliás tem cada cardápio! Uns até parecem uma planta de arquitetura, só falta o tudo pra você abrir e tirar de lá o cardápio – e já cai na realidade que a fome foi embora após algumas garfadas; mera ilusão amigo: comida de shopping raras vezes é boa! Você termina, o prato está cheio, teu lugar já foi ocupado, o velho ainda tá comendo, o casal tá dando mais beijinho, o moleque birrento se acalmou e graças ao bom Deus o Ronald parou de cantar. Agora é hora de caminhar pelo shopping. Praça de alimentação só quando a fome me irracionalizar novamente. Que tal na semana de natal? Se o Ronald estiver lá cantando vai ter morte; pode escrever!                                   

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A BANALIDADE VENCEU?

 

 Agora parece oficial, tudo que é banal é destaque; até o que é sério merece descarte.  Aguado feito “água” de sache de reutilizado e profundo tanto quanto a xícara do chá feito do mesmo! Não, mas não se preocupe; você nem vai perceber quando estiver tudo maquiado. E muitas vezes nem vai se tocar do que estou falando. Espero que sim. Disfarçado num photoshop, ajeitado num pancake, bem mensurado pra ser exposto. Desgosto? Nem pensar! Vivemos o hoje pelo prazer; sofrer é coisa do passado. A não ser que seja um “sofrimento marketiado”, por um objetivo comercial, para vender algo de verdade; gerar lucro. Ora lágrima também dá dinheiro! Estarrecidos alguns – poucos- ficam quando se deparam com a falta de caráter emocional gritante da atual sociedade moderna. Amamos os pets e desprezamos os pivetes. Ora estes são obrigações do Estado e pelo tal estado em que estamos ninguém está cuidando de nada. Surpreso? Verdades incomodam? Não, nessa sociedade do clik acho que não! Honestidade passa a ser algo surpreendente, emoção verdadeira é frescura, um grito é sintoma de estresse, calar-se é ter problemas, analisar algo é para tolos, falar correto é estranho, pisar nas cacas das ruas é normal. Natural ser “idiota”, fingir que amo o meu vizinho, que eu não vi a viatura estacionada em lugar errado, que o cara não é polícia e nem ambulância pra ter sirene e romper o trânsito numa boa. Aliás, trânsito é assunto a parte: consumimos automóveis modernos para não andarmos a lugar algum. Apenas a satisfação de possuir é o que basta. Na ponta das excentricidades vencem os que têm mais capital. Quer medir as consequências? Espere mais alguns anos. Aguarde o crescimento de uma nova criança, se puder analise após um tempo; as capacidades das novas gerações nos farão perceber o quanto hoje uma análise mais fria faz sentido. Espero estar enganado, desesperado por uma causa que possa ser salva, achando o que não existe para outros e só para alguns uma suposição paranoica transloucada e alucinada; mas seria o caso de se perguntar: a banalidade venceu? Se não venceu está ganhando de goleada. Lembrem-se; nosso jogo não tem 90 minutos.    

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DOMINGOS SE FOI NUMA terça-feira

Pois é! Poderia dizer que um domingo é um sempre domingo. Mas quando são vários marcam nossas vidas e, em particular a minha foi marcada em parte pelos domingos com Dominguinhos. Quando criança ouvíamos em casa, em alguma hora da tarde, na velha vitrola de meu pai. Em seus domingos inspirados ou nas  suas manhãs regadas ao Zé Bétio e sua sonoplastia impecável. Acho que foi daí que viciei nas onomatopeias! Mas Domingos, o cantor, sempre lembrou meu pai. Seu jeito austero, cara de sertanejo, marcas no rosto, fala firme de timbre engrossado; coração mole que nem manteiga. Certos gênios assim nunca se vão. Parecem domingos que chegam sempre como o sol de um dia tranquilo e feliz. Dentro do meu carro nunca faltou a sua voz. Meu velho pai que dirigia com a fúria dos psicopatas de trânsito querendo chegar sempre na frente de alguém. – quebrando asa como ele dizia – Eu, mais calmo ao volante gosto de admirar a paisagem com a trilha sonora da sanfona do velho Domingos. Representante maior de Gonzaga, herdeiro do forró; música genuinamente brasileira – que falta faz esta , meu Deus! – Alguns só reparam na riqueza de algo quando perde, outros se perdem e não veem mais riqueza em nada. E o forró de seu Domingos é riqueza. Não digo era porque música de qualidade é para sempre, não pode nunca se usar um verbo no passado! Por ser de lá…os homens são assim; trago em sangue algo deles, DNA sertanejo, me orgulho disso. Amigos a gente encontra…é difícil, mas a gente sempre encontra.  Todo tempo que tive pra mim é pouco…por isso ouço música de qualidade, com meu amor por perto! Nas vozes de outros; não importa Dominguinhos, sempre poeta, natural, fiel às raízes, homem que dá orgulho de ver, artista que orgulho ser fã, arquiteto da música brasileira. Domingos se foi numa terça-feira, mas jamais deixará de existir; o que é bom permanece!   

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NOTÍCIAS DE TUDO

A sociedade é e já foi analisada verificada, estudada e vista pelo avesso pelos mais nobres ilustres e sumidades, a parte, dos grandes pensadores; sociólogos principalmente. Isso é fato! Neste fato analisa-se ai que sociedade é estudo. Estudo é investimento, investimento é retorno, retorno é fead back e isso é mídia. Então, chegamos à conclusão que a mídia está para o mundo assim como Cristovão Colombo está para as Américas. (Para quem não sabe o tal explorador morreu louco, transloucado em sua terra de descoberta, abandonado e renegado; triste fim para um homem “explorador exemplar” na história da humanidade) Mas sim, falava da mídia. Já repararam que tudo é notícia? Não sei se sempre foi assim ou os tempos atuais estão mais acelerados e necessitam dispor de mais variedades de assuntos. A verdade é que tudo vira notícia! É o cardápio de variedades que a sociedade atual exige ou é o “la carte” que se oferece  para satisfazer a ansiedade noticiosa da população , do leitor ou do público? Ah, já sei! Foi a internet quem criou este tipo de leitor; o ágil. Arisco, feito aos arroubos em que quanto mais a sua velocidade de banda larga mais sua banda se alarga para novas páginas e horizontes. Seria tipo vídeo game sabe! Aqueles em que não basta só a qualidade que você executa e sim velocidade que você vence conforme cada etapa da execução. Estaríamos vivendo a era da vida game? Notícias game? Nas ações, nas atitudes, no trabalho, no amor, na convivência banal, na exposição geral de uma vida efêmera e fugaz? A verdade é que a exposição que a mídia hoje classifica nos torna reféns de todos os assuntos: é preciso conhecer tudo, entender quase tudo ou pelo menos supor que conhece em parte; vale até disfarçar e fingir que sabe: é o mundo do conhecimento! A miscelânea está lançada, no dia a dia das páginas que vão parar nos dados perdidos, mas sempre encontrados provisoriamente num site de busca. Aliás, é impressionante: você descobre cada coisa com a internet. E a sensação de que você faz parte ativa disso é impressionante. Sua valorização de participação é o que mais denota. Procura-se; você se verá! Quebra-se cada conceito antigo e a cada dia, que a sua impressão é que, realmente, você fez a notícia e você faz parte dela. Sendo ela em si; dentro do sistema de controle – fato que sempre trato aqui- nem se percebe que a manipulação é o ganho para poucos e não perdas; muita pra você. – aliás, desde o princípio, da grande descoberta da manipulação ideológica. – Ganho de tudo para a busca da felicidade – Vai ver a notícia hoje é assim para não termos tempo de análise. Ela requer reflexão, esta requer tempo e tempo é coisa pra ontem no mundo de hoje! Só pra lembrar; Cristovão também navegava, mas era de caravela!

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A REVOLTA DOS PELADOS

Em tempos de manifestações, liberdade, novos anseios pela libertação do ser humano; inclui-se ai, devidamente ou literalmente, agora: o corpo. São os chamados naturistas reivindicando o direito de andarem pelados na rua. Pelados? Nus? Com a genitália desnuda? – Como diria minha irmã no dia em que viu meu pai no hospital com os balangandãs de fora. Aliás, o velho teve um surto e abriu fuga pelos corredores com o bilau balangando pela frente e a busanfa quase toda a mostra; salvo pelo aventalzinho…(mas isso é outra história que conto outro dia)- Eles querem andar como vieram ao mundo? Não! Não como vieram ao mundo. No dia em que vieram ao mundo – estes naturistas- não faziam parte dos candidatos ao atentado ao pudor- eram cuti-cutis bebês que não escandalizavam e nem horrorizavam nossas ruas – a moral e aos bons costumes- como diria “Odorico Paraguassú”: esses bundistas, genitalenses afrontam a moral sucupirana! E por vai, ou ia. Mas, voltando ao assunto mais sério – se é que seja possível ser sério com isso – Eles querem ter o direito de andar pela cidade pelados? Naturistas. Bom, que eu saiba o naturismo surgiu na Grécia – muito tempo atrás, mais de dois mil anos- e tinha um conceito mais elucidado em matéria de “contato com a natureza”. O homem estaria ligado a ela, procurava desvendar esse mistério numa mistura de investigação para o conhecimento e sensação para o auto-conhecimento. Mas sem didáticas por hoje! A questão é mais profunda; que não se perca a piada e se diga que a questão é mais “abundante”! Diria um antigo amigo da faculdade; que tem o mesmo nome do cavalo dos picaretas do filme (animação) “Em busca do Eldorado”. (engraçado pensar nisso agora: querem estes naturistas ou “peladocitizens” encontrar o Eldorado com essas ideias núdicas? Vai saber!) Bom, diria meu amigo: isso é tudo culpa do capitalismo! O pior é que nem posso discordar disso – aliás, para meu amigo a discordância era quase um orgasmo; assim ele podia “escumar” pela boca de tanto proferir a sua razão descabida, mas sempre com um fundinho de verdade – Por que culpa do capitalismo bem na cabeça dessas pessoas nuas, ou torcedoras dos peladões futebol, clube? É que a publicidade prega a todo tempo a liberdade: tenha isso, seja aquilo, faça isso, você pode mais, você opina, interage, curti, curti, curti, mas sempre é tudo seu. Ou seja, a liberdade virou quesito máximo para nossa sociedade. Mesmo quando alguém prega o ato de humanidade do compartilhar, o que se vê, no entanto, é o compartilhamento do egoísmo; do eu fiz, eu faço, eu posso! Vejam as propagandas, não como um consumidor qualquer, mas com os olhos de “meu amigo”. Depois analise mais uma vez. O sentido de felicidade está arraigado à liberdade, ao mesmo tempo em que somos mais do que nunca vigiados o tempo todo pelo sistema e sua engrenagem. Como aliviar tudo isso; seja livre! É o que eles querem. Seja livre: ande nú! Ou com a genitália desnuda; como queira.       

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O CINEMA E BRUCE LEE

Era sempre aos domingos. Pegávamos o ônibus, o trem ou íamos a pé mesmo, numa zoeira só. Cinco garotos. Tínhamos entre 13 e 15 anos. Aquela fase em tudo é adrenalina, novidades, brincadeiras de mão, tapas na orelha, besteirol, muita conversa sobre aquilo que supõe sobre sexo e nada sabe realmente além, é claro, da paixão pela luta marcial. Já tinha visto algo na TV, comerciais, filmes, mas nada é igual ao cinema. Aliás, o cinema que ficava em Guaianazes, – pra quem não sabe zona leste de São Paulo, bairro da periferia que vem após Itaquera – situava-se entre duas ruas após uma breve subida. No domingo à tarde, aquele prédio monstro no meio da bifurcação das ruas nos aguardava para exibição de mais um filme de lutas marciais. Às vezes conseguíamos entrar e ver alguma pornochanchada brasileira onde Aldine Muller era a deusa que pulava das telas para a lembrança no banheiro de casa. Mas foi nesse cinema, do qual não me recordo o nome, que vi pela primeira vez em tela grande o pequeno gigante Bruce Lee. Diferente de todos e contra todos, com seus golpes fatais seguidos de seus gritinhos que mais lembravam um gato no telhado. Seus filmes – como não podiam deixar de ser – eram pancadaria do começo ao fim, seguido de um enredo que envolvia heroísmo misturado a vingança com o trinfo final do herói na última cena. Mas isso no momento não importava! O que valia a pena mesmo era ver Bruce Lee sem dublê dando seus golpes, suas piruetas – que muitos críticos diziam ser nada mais do que balé – seu domínio com as armas marciais; lanças e “mutchacos”.  Era um delírio para todos, atentos às duas horas e alguns minutos de filme. Depois, saiamos do cinema na boca da noite imitando o grande astro. Socos no ar, pontapés, golpes no vento e muita alegria. Respirávamos a descoberta do herói, sintetizámos a honra em discussões sobre o golpe do mestre, a hora crucial da matança; como se o filme cumprisse a missão oferecida: divertir e entreter. Cada um sabia que na hora de ir para casa levaria consigo alguma lembrança exposta na grande tela. E de algum modo carregariaa parte que “importava” do grande heroi. Nesse tempo, Bruce Lee já tinha morrido há pelo menos 5 anos e nem sabíamos disso ainda. Mas, mais uma vez isso não importava. Ele estava vivo pra nós. Em cada golpe, cada gesto, cada gritinho sarcástico e cada final feliz. Tínhamos um encontro marcado, sempre aos domingos. Nós, os cinco “Bruces Lees!” e o mestre dos mestres. Isso era o que importava! 

Bruce Lee (27/11/40 a 20/07/73)

 

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