O CINEMA E BRUCE LEE

Era sempre aos domingos. Pegávamos o ônibus, o trem ou íamos a pé mesmo, numa zoeira só. Cinco garotos. Tínhamos entre 13 e 15 anos. Aquela fase em tudo é adrenalina, novidades, brincadeiras de mão, tapas na orelha, besteirol, muita conversa sobre aquilo que supõe sobre sexo e nada sabe realmente além, é claro, da paixão pela luta marcial. Já tinha visto algo na TV, comerciais, filmes, mas nada é igual ao cinema. Aliás, o cinema que ficava em Guaianazes, – pra quem não sabe zona leste de São Paulo, bairro da periferia que vem após Itaquera – situava-se entre duas ruas após uma breve subida. No domingo à tarde, aquele prédio monstro no meio da bifurcação das ruas nos aguardava para exibição de mais um filme de lutas marciais. Às vezes conseguíamos entrar e ver alguma pornochanchada brasileira onde Aldine Muller era a deusa que pulava das telas para a lembrança no banheiro de casa. Mas foi nesse cinema, do qual não me recordo o nome, que vi pela primeira vez em tela grande o pequeno gigante Bruce Lee. Diferente de todos e contra todos, com seus golpes fatais seguidos de seus gritinhos que mais lembravam um gato no telhado. Seus filmes – como não podiam deixar de ser – eram pancadaria do começo ao fim, seguido de um enredo que envolvia heroísmo misturado a vingança com o trinfo final do herói na última cena. Mas isso no momento não importava! O que valia a pena mesmo era ver Bruce Lee sem dublê dando seus golpes, suas piruetas – que muitos críticos diziam ser nada mais do que balé – seu domínio com as armas marciais; lanças e “mutchacos”.  Era um delírio para todos, atentos às duas horas e alguns minutos de filme. Depois, saiamos do cinema na boca da noite imitando o grande astro. Socos no ar, pontapés, golpes no vento e muita alegria. Respirávamos a descoberta do herói, sintetizámos a honra em discussões sobre o golpe do mestre, a hora crucial da matança; como se o filme cumprisse a missão oferecida: divertir e entreter. Cada um sabia que na hora de ir para casa levaria consigo alguma lembrança exposta na grande tela. E de algum modo carregariaa parte que “importava” do grande heroi. Nesse tempo, Bruce Lee já tinha morrido há pelo menos 5 anos e nem sabíamos disso ainda. Mas, mais uma vez isso não importava. Ele estava vivo pra nós. Em cada golpe, cada gesto, cada gritinho sarcástico e cada final feliz. Tínhamos um encontro marcado, sempre aos domingos. Nós, os cinco “Bruces Lees!” e o mestre dos mestres. Isso era o que importava! 

Bruce Lee (27/11/40 a 20/07/73)

 

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