PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO

Um sábado, duas da tarde. A fome já não te faz raciocinar, ela te conduz a um único pensamento comida, comida e comida. Isso não é raciocínio! É auto latrocínio fisiológico; pois do contrário jamais te levaria sem pensar até um shopping em pleno final de novembro, quase dezembro – quando a centrífuga do capitalismo natalino já está te empurrando no meio da coisa ao centro do funil da gastança desenfreada- para almoçar e, logicamente, olhar vitrines; porque ninguém é tão cego assim quando seu desejo não desejável verdadeiro é empurrado goela abaixo pela mídia: ver nem sempre é preciso, comprar é preciso, eu preciso e todos nós precisamos! Mas o objetivo deste não é a crítica apenas é o outro lado da coisa: a praça de alimentação. Acho que o cara que inventou a praça de alimentação nunca teve mãe, família, uma casa ou se teve tudo acontecia de um modo tão ridículo e sem fraternidade que ele carregou da infância pra adolescência essa ideia macabra de criar esse maravilhoso espaço compartilhado e cercado de lanchonetes e restaurantes. São dezenas de mesas quadradas, as vezes redondas e muitas vezes com cadeiras fixas ou até mais chiques com cadeirinhas de alumínio soltinhas pra alguém “roubar” e levar pra outra mesa onde tem quatro lugares, mas alguém precisa comer juntinho – pra manter aquele velho espírito familiar, lembra?- então pega uma cadeira e defasa a outra mesa e porque, como sempre sem se tratando de comida, que se danem os outros. A comida é maravilhosa: no papel. E haja papel e propaganda. Você chega e vai caminhado; ou melhor, movido pelo estômago e a fome maligna. Você começa a ouvir e perceber o assédio ou mais específico o atentado alimentar pelos funcionários das fornecedoras de alimento. Dá uma impressão estranha: assédio alimentar! Acho que, se as pessoas que ficam na porta das lanchonetes e restaurantes tivessem uma corda com um laço poucos escapariam. Yup! Peguei mais um! Quem laçasse primeiro colocaria o coitado na fila pra esperar e escolher o prato que vai pedir. E tudo tem fila. Fila do cardápio, fila da senha, fila do pedido, fila pra retirar, fila pra mesa…Antes de retirar começa a odisseia pra encontrar uma mesa vazia. Logicamente você vê uma porção de mesas com quatro cadeiras e uma ou duas ocupadas. Porque as pessoas nunca querem sentar perto das outras?– a menos que a pressa fale primeiro – Ou quando sentam, quem está comendo olha estranho para aquele que sentou. Tipo: ei essa mesa é minha, caia fora. Ou coma logo porque eu quero comer em paz! Dou até razão às vezes. Já imaginou um casal de namorados brigando e um senhor ou uma senhora senta-se ao lado deles com aqueles pratos do por kilo – onde tem um pouco de tudo e o saudável de nada. Linguiça, bobó de camarão, acarajé, pedaço de picanha, macarrão, batata, carne assada e por vai; esqueci: grão de bico pra dar um tchã! – e começa a se meter na briga dos dois? Ou o contrário, como presencie e me inspirei a fazer esta. O casal em beijinho e amores – no começo é tudo assim, beijinho por causa do beijinho, beijinho porque vai ao banheiro, porque voltou, porque deu saudade, porque foi pouco beijinho e por vai – e chega o velhinho. Com toda educação pede pra sentar, senta-se e começa a comer. Detalhe: a moça ficou e o namorado saiu e deu muitos beijinhos nela; – tantos que irritam – e já está voltando com a bandeja dela. Depois sai e volta com a dele. Ficam de frente e o senhorzinho ao lado. Velho de luz de vela na praça de alimentação. Detalhe: a música de fundo é o palhaço Ronald Mcdonalds cantando em playback aquelas lindas canções que prefiro não comentar. Mas ai o velhinho morde a batata e do lado dele rola um beijinho. Vai na calabresa e dá-lhe beijinho. Se lambuza no camarão e vem beijinho. E o Ronald se empolga e parece que som ou o próprio satanás do Ronald já está cantando dentro de seu cérebro. Na mesa ao lado uma criança começa a fazer birra, – acho que por causa do palhaço – o pai e a mãe não sabem o que fazer. Então, chega o grande momento da vingança. Você! É você mesmo! O coitado que se uniu a fome gigante do exército de Xerxes contra os 300 espartanos das mesas pra conseguir um lugar, finalmente se vê cercado por pessoas loucas pra sentar no seu lugar – parece filme de tubarão sabe? Mas, aqueles bem trash; tipo um que eu vi onde o tubarão mutante tinha duas cabeças. – Ai, as pessoas te olham com aquela cara tipo: sai dai cara! Tô com fome. E tem aquelas mal educadas que já vão fazendo igual cachorro pra arrumar briga; – cheira o rabo outro- ficam tão perto que sentem o cheiro a comida; só pra marcar território. Então; você ali comendo a comida que você sonhava – pelo menos é o que dizia na foto o cardápio; aliás tem cada cardápio! Uns até parecem uma planta de arquitetura, só falta o tudo pra você abrir e tirar de lá o cardápio – e já cai na realidade que a fome foi embora após algumas garfadas; mera ilusão amigo: comida de shopping raras vezes é boa! Você termina, o prato está cheio, teu lugar já foi ocupado, o velho ainda tá comendo, o casal tá dando mais beijinho, o moleque birrento se acalmou e graças ao bom Deus o Ronald parou de cantar. Agora é hora de caminhar pelo shopping. Praça de alimentação só quando a fome me irracionalizar novamente. Que tal na semana de natal? Se o Ronald estiver lá cantando vai ter morte; pode escrever!                                   

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