A cesta de Natal

O dia ainda estava escuro enquanto Dorcas despertada pela obrigação, mas embriagada de sono e cansaço, resfolegava o ar da manhã em rápidas passadas rumo à estação de trem. No caminho, algumas pessoas já transitavam sobre as estreitas calçadas provocando um sonoro lembrar de uma marcha descompassada. A tiracolo, uma velha bolsa ficava envolvida em seus braços para manter firmeza sem atrapalhar a objetiva caminhada. A chegada à estação se tornava sempre uma agonia; o medo do atraso do trem, os gatunos de plantão ou um homem atrevido qualquer que se aconchegasse de modo mais abusado, quando ela já estivesse dentro do vagão. A ansiedade tomava conta de todos quando o trem encostava-se à plataforma; os olhares procuravam lugares enquanto as portas e as janelas iam passando como um carrossel fazendo uma parada. No meio da aglomeração, entre pernas, bolsas e cotoveladas, suas mãos alcançaram o ferro de apoio completamente gelado. Outras mãos se chegaram provocando um emaranhado de braços, cheiros e texturas. Próxima estação. A estranheza do olhar de um na cara do outro já não incomodava tanto. O trem seguiu o seu trajeto como algo sólido e lógico. Cabeças paradas, gente dando risadas, outros fumando. Aos poucos o aperto se misturava com acomodação. Entre um braço e outro, o alcance de sua visão conseguia distinguir um pouco as palavras em destaque na primeira página de um jornal que um homem de chapéu lia com atenção. Ao seu lado uma mulher de olhos fundos tentava cochilar. Em suas costas, um frio gelado insistia em penetrar pela fresta da porta. Entre rostos e paisagens Dorcas encontrou algumas lembranças que começaram tentar se encaixar. A noite passada, a discussão com o marido que gostava de beber, o filho que não comia direito e estava muito magrinho. Era ora desse menino corar, pensava. Será que tava com bicha? Licor de cacau daria um jeito. Os outros dois filhos estavam bem; a mais velha tirando boas notas na escola, o do meio como sempre aprontando, mas passando de ano e o frio que num acalmava; precisança de compra blusa pros dois; mas como? O resto tava bom; com saúde tudo se arranjava. Entre o chacoalhar do trem e o barulho do assobiar do atrito das rodas com os trilhos, seus pensamentos dispersos só foram resgatados por uma importante e única lembrança: aquele era o dia da véspera de natal. O ano tinha atropelado a vida e gastura dos dias era trabalho fora e em casa.

Após uma jornada de duas horas de viagem e três conduções, a subida na rua de paralelepípedos para chegar até o trabalho se tornava ainda mais difícil. Parecia que a pequena rua se transformava em uma enorme montanha, onde Dorcas caçaria um leão e o mataria até às sete horas da noite. Na sua labuta, limpava, lavava e passava. A Casa dava trabalho: quartos grandes, sala imensa, uma grande escada com o corrimão de latão. A patroa sempre exigia o brilho, tinha muito orgulho daquela escada. Do lado de fora, um quintal pra mais de vinte metros. O varal também não era nada pequeno. Ali ela estendia toda a roupa lavada que ficou esperando desde a semana anterior. Uma pilha de roupas sujas; sete pessoas vivendo e sujando. Ela não se importava, a partir do momento que adentrava pela casa praticamente virava outra pessoa; era um trem por dentro do outro, como ela dizia, de tão ágil e forte. Suas pequenas mãos viravam grandes máquinas e o minúsculo corpo se movia para lá e para cá o dia inteiro. O vestido puído era o quadro vivo que misturava manchas de suor e água de sabão. Hora do almoço. Senta aqui com a gente Dorcas! A patroa falava. Meio sem jeito, ela respondia que não, e com um sotaque todo seu emendava: eu gosto de cumê na suleira. Quanto mais cedo terminá o selviço, mais cedo vô imbora!

E seguiu o dia, chegou a tarde e passou o tempo. Após a última peça de roupa passada, ela guardou o ferro e foi se arrumar. Já de volta, deu alguns passos e se diante da grande porta de peroba de entrada do casarão. Ao lado, um vaso com uma palmeira. “Deixa que eu bote água dona Nenê.” Disse Dorcas com delicadeza, largando a bolsa no chão. Quando voltou com um caneco na mão teve um espanto. Antes do primeiro degrau, sua patroa havia colocado uma grande caixa de papelão. “Sua cesta de natal!” Disse dona Nenê. A caixa era uma embalagem simples, porém, estava bem amarrada. A patroa agradeceu a Dorcas pelo bom trabalho que ela desempenhava na casa e desejou-lhe um feliz natal, sem se esquecer de dar recomendações à toda sua família. Abraçaram-se e se despediram. Os pequenos braços de Dorcas envolveram a grande caixa de papelão, deixando apenas a visível um pedaço de seu rosto, onde os olhos agradecidos e marejados já vislumbravam uma pequena luz no final da rua que aparecia no meio da escuridão que espreitava. Ao chegar ao ponto de ônibus, o peso da caixa já falava por si só. Cansada, colocou a caixa no chão. Ao seu lado algumas pessoas também esperavam. Próximo ao ponto, um comerciante lavava a frente do bar. A água escorria rua abaixo, formando curvas pela calçada. Dorcas estava atenta para não perder o ônibus. Encostado a parede, um mendigo gemia lamúrias, apesar de aparentemente estar embriagado. Quando o ônibus chegou, ela mal teve tempo para apanhar a caixa; as pessoas correram se atropelando, provocando um tumulto nos degraus. Quando finalmente conseguiu entrar e colocar a caixa no chão, percebeu que o fundo e as dobras estavam molhados. Tocou a mão e sentiu um pequeno espaço; alguma coisa tinha ficado para trás. Ao erguer a cabeça, notou do lado de fora o mendigo se abaixando e abraçando feliz um pote de vidro. Ao arranque do ônibus, sua única reação foi olhar para a caixa e lamentar em silêncio. Na Segunda condução de volta para casa, sua caixa estava de ponta cabeça, já que o papelão do fundo não oferecia resistência. Mesmo assim, o peso ainda era grande, seus braços doíam. Dorcas tentou resistir o máximo que pode.

Dentro do trem não havia lugar para sentar, suas mãos formigavam; seu cansaço era maior que tudo. Sentindo não poder levar a caixa tão cheia e pesada até em casa, sua solução foi aliviar o peso e o sofrimento com a doação. Um pacote de macarrão para uma senhora mal vestida. Uma lata de ervilhas para a menininha que vendia doces. Uma caixa de bombons foi aberta e dividida para dezoito pessoas. A notícia se espalhou no vagão, olhos pedintes apareceram de toda parte. Um isso para aquele, um aquilo para o outro. Restaram apenas dentro da caixa quase esfarrapada uma garrafa de vinho e um saco de balas de festa. Quando ela chegou a casa, passava das dez da noite e todos já estavam dormindo. Seu marido roncava na cama de casal e suas três crianças estavam esparramadas num velho colchão no chão. Dorcas tomou banho, se ajoelhou aos pés da cama, pediu para Deus proteger a todos, e cansada, deitou e dormiu. A luz da lua atravessava a janela da cozinha e fazia a garrafa de vinho em cima da mesa refletir sobre o saco de balas brancas que certamente fariam a felicidade das crianças no natal. Em algum canto da cidade, um mendigo comeu azeitonas, uma velha cozinhou macarrão e uma menininha, enjoada de comer resto de doces, comeu pela primeira em sua vida ervilhas em conserva. 

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